7 da tarde e ainda não lavei os dentes

Sobre aquelas saudades feitas de cores e cheiros e texturas

Por cima da cabeça de caracóis pretos, o sol bate por entre as folhas da videira e projecta um naperon de sombras no chão de cimento quente. Os pés estão descalços à espera que a água percorra todas as curvas e contra-curvas da mangueira do quintal para lavar a terra escura.

O cheiro da borracha quente da mangueira mistura-se com o das flores do quintal e com o dos pêssegos amarelos pendurados na árvore torta. Mas todos estes cheiros juntos não ganham nunca ao cheiro da serra, que cerca o vale e se impõe em todas as frentes.

Corre uma brisa muito leve – tão leve que quase não se sente. Passa apenas de raspão na nuca para anunciar o fim de tarde. Daí a nada a avó há-de aparecer na ombreira da porta e há-de aproveitar a água de lavar as couves da sopa para regar as hortenses. Enquanto isso, há-de perguntar se não será melhor entrar para tomar banho e depois jantar.

Gosto de regressar ao sítio da minha infância. Mais do que isso: preciso de lá regressar de vez em quando para sentir saudades – mas daquelas que são feitas de cores e cheiros e texturas. Preciso de lá regressar para encontrar todos os que continuam por lá e todos aqueles que – encontrando lá – já não estão por cá.

Preciso de lá regressar para encontrar aquela miúda, feita da mesma matéria que eu, mas já tão diferente. Cada vez mais diferente.

5 comentários em “Sobre aquelas saudades feitas de cores e cheiros e texturas

  1. Marta

    Catarina, sigo o blog com alguma assiduidade, embora me limite sempre a ficar nas sombras. Mas desta vez não deu.
    Os escasos segundos que demorei a “devorar” este post, tão curto e tão cheio de tudo, fizeram-me recuar vinte e muitos anos, à eira e ao quintal onde fui tão feliz, à figueira onde trepava mal a avó virava costas, aos morangos, tomates e rabanetes comidos mal os arrancava da terra, só passados pela agua que percorria a terra com destino às batatas que estavam a ser regadas.
    Obrigada por, num dia tão cinzento como hoje, ter preenchido o meu início de tanta cor e perfume!

  2. Marta

    Catarina, sigo o blog com alguma assiduidade, embora me limite sempre a ficar nas sombras. Mas desta vez não deu.
    Os escasos segundos que demorei a “devorar” este post, tão curto e tão cheio de tudo, fizeram-me recuar vinte e muitos anos, à eira e ao quintal onde fui tão feliz, à figueira onde trepava mal a avó virava costas, aos morangos, tomates e rabanetes comidos mal os arrancava da terra, só passados pela agua que percorria a terra com destino às batatas que estavam a ser regadas.
    Obrigada por, num dia tão cinzento como hoje, ter preenchido o meu início de tarde com tanta cor e perfume!

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Olá Marta,
      Sabe uma coisa? Eu é que ganhei o dia com o seu comentário.
      Obrigada pelas palavras e por me ler 🙂 E vivam as memórias de infância!
      Um beijinho!

  3. Paula Ungaro Rola

    “Preciso de lá regressar para encontrar aquela miúda, feita da mesma matéria que eu, mas já tão diferente. Cada vez mais diferente.”

    É tão bom absorver a força das suas palavras … simples, porém tão carregadas de memórias e sentimentos. Tudo aquilo que nos transporta para a nossa infância tem um pouco de nostalgia misturado com um renergizante natural para a alma. 🍀

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      É bem verdade, Paula!
      Felizmente a minha infância foi recheada de episódios felizes – o que me dá um belo álbum de recordações 🙂
      Um beijinho para si!

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