7 da tarde e ainda não lavei os dentes

Roteiro catita de Hamburgo – parte II

Partilhei aqui o nosso primeiro dia em Hamburgo. Agora termino o meu regresso a esta cidade fantástica, que tanto me surpreendeu.

~~ DIA 2 ~~

Acordo com o sol a entrar pela janela e com muitas dores nas pernas, de tanto caminharmos no dia anterior. Mas levanto-me com aquela sensação boa de ter o dia por nossa conta (quem tem filhos sabe que um dia por nossa conta é só incrível!)

Depois de um belo pequeno-almoço de hotel – daqueles com os quais sonho quase todos os dias – fazemo-nos à estrada em direção ao bairro português, o Portugiesenviertel.

Em poucos minutos entramos numa zona residencial muito simpática, com varandas cheias de flores e muitas pracetas cheias de árvores. E chegamos a uma rua onde só ouvimos falar a nossa língua e lemos nos letreiros dos restaurantes nomes portugueses como O Pescador ou D. José. Sentamo-nos numa esplanada e pedimos um café – era Delta e foi o melhor que bebemos em Hamburgo.

Apesar de os guias apontarem o bairro português como dos melhores locais para comer, decidimos avançar para outro ponto da cidade porque ainda não são 11h.

Caminhamos agora em direção ao porto. A ideia é conhecer a zona do fishmarket mas damos por nós tão cansados que decidimos comprar bilhetes para o autocarro “hop on hop of” – a melhor ideia do dia!

Conseguimos lugar no piso superior e usamos os auscultadores para receber informações em inglês acerca da cidade e da sua história – mas mal se ouve porque o guia turístico alemão fala aos berros.

Daquilo que conseguimos ouvir, percebemos que deve ser espectacular viver no centro de Hamburgo – pelo equilíbrio entre espaços residenciais e espaços verdes/lúdicos. E caro, também!

Decidimos dar a volta completa e regressamos ao fishmarket – ou à zona onde este se realiza todos os domingos às 5h.

Ouvimos falar de umas iguarias de peixe, sentamo-nos num restaurante muito informal e damos por nós diante de um prato que combina três tipos de peixe grelhados, salsichas alemãs e salada de batata. Parece estranho, mas é bom!

Decidimos regressar à Moenckebergstrasse para visitarmos umas lojinhas que tinha fisgado no dia anterior. Entramos em duas ou três e, apesar de o impaciente ser ele, dou por mim a achar que não faz muito sentido perder tempo nas compras e acabamos por seguir viagem – novamente a pé – depois de nos sentarmos numa esplanada cheia de gente mas onde se consegue ouvir os pássaros – está longe de ser barulhenta esta cidade!

Voltamos ao cenário idílico do lago de Alster com a Rathaus do outro lado e metemo-nos por uma paralela. Caminhamos calmamente em direção ao hotel, aproveitando para percorrer duas ou três ruas aonde ainda não tínhamos estado. Vamos encontrando pelo caminho cafés portugueses cheios de pastéis de nata nas montras e onde os locais pedem galões.

À noite, voltamos ao porto e à zona do fishmarket para um jantar de imprensa do evento de UFC – aquele que levou o Raminhos a marcar o fim‑de‑semana em Hamburgo – no Hard Rock Café.

Sou a única mulher entre uma dezena de homens, a maior parte jornalistas desportivos – quase todos engraçadinhos. E foi bem divertido! Além de termos direito a um pôr-do-sol no terraço que deixou a cidade toda em tons laranja antes de cair a noite.

Terminamos a noite na zona mais “fora” da cidade, a Reeperbahnn – o “red light district” – que o Raminhos apelidou de “Sodoma e Gomorra juntas”. Passo a explicar: a uma zona de bares tipo bairro alto, mas com música mesmo aos berros, acrescentem prostitutas na rua, que “interagem” com homens e mulheres. A isto acrescentem ainda uma rua interdita a mulheres (sim, isto existe!), um quarteirão dedicado a gays e outro a transexuais. Isto com centenas de pessoas na rua, a maioria com menos de 30 anos. Garrafas pelo chão e sei lá mais o quê!

Fomos os primeiros a ir embora. Uns “meninos”, é certo, mas já tínhamos tido a nossa conta de David Lynch…

~~ DIA 3 ~~

Decidimos fazer da manhã de domingo um “faz de conta que moramos aqui” e, depois do pequeno-almoço, fomos à estufa do jardim botânico e deixámo-nos ficar, sem pressa, sentados à sombra das enormes árvores do Parque Plantas e Flores (Planten un Blomen).

Voltamos agora ao Karoviertel, a zona onde tínhamos jantado na primeira noite e apanho a maior desilusão: as lojas estão fechadas e contento-me em dizer adeus a umas quantas pecinhas catitas que me sorriem através do vidro da montra…

Mas pouco mais à frente, em jeito de compensação divina, encontramos uma espécie de feira da ladra junto à linha do comboio, com peças super originais de artesãos locais.

Há carteiras feitas com telas, candelabros que nascem de caricas, chapéus de palha para todas as cabeças e, num cantinho, uma estilista que faz saias a partir de camisas e casacos de homem. Comprei duas saias – eu que não sou de usar saias! – porque de facto são super giras e fora do comum.

Almoçamos noutro restaurante vegan ali perto, o Happenpappen – comida deliciosa com sabor caseirinho! – e seguimos para o hotel – eu feliz da vida com as minhas saias “ex-camisas de homem”, ele feliz porque se aproximava a hora do evento.

Terminamos o dia – e a experiência de Hamburgo – numa arena gigante, com uma jaula a meio e milhares de pessoas com um ar perfeitamente normal para quem foi ver porrada. Como todos os preconceitos, o meu também estava errado.

O evento decorreu com uma calma surpreendente por parte de quem assistiu, um fair-play incrível por parte de quem lutou e uma organização exímia.

Quando saímos quase que ouvi o saudoso Fernando Peça a sussurrar-me ao ouvido “e esta, hein?”

Hamburgo, havemos de nos encontrar mais vezes…

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