7 da tarde e ainda não lavei os dentes

E, ao sétimo dia, fizemos uma escola…

Num mundo tão acelerado, por vezes repetitivo e feito de rotinas que nos arrastam na corrente, fomos obrigados a parar. “As tutoras pediram a demissão. Vão sair no final do mês”.

Tiraram-nos o tapete. As tutoras – cabeça e coração da escola da Maria Rita – iam deixar os miúdos. Da incredulidade inicial, rapidamente tivemos de passar à acção. Ouvimos as tutoras, compreendemos os seus motivos e colocámos-nos – naturalmente – do seu lado. Percebemos que não íamos conseguir que ficassem naquela escola porque “os valores pelos quais foi criada não estavam a ser respeitados”. E, acima de tudo, não imaginávamos os nossos filhos lá, sem elas.

Aquela escola, para nós, não ia ser a mesma. Então, eu, o Raminhos e mais uma dúzia de pais cometemos a maior – e a melhor – de todas as loucuras: sonhámos com uma escola diferente para os nossos filhos. E desenhámo-la ao pormenor. Em poucos dias, traçámos os princípios, constituímos legalmente e encontrámos uma casa (emprestada) para a SKOOL – Associação Sobre Crianças Orientadas em Open Learning.

O método de aprendizagem da SKOOL foca-se nas crianças e nas suas capacidades. Há um claro incentivo para que aprendam através de lições curtas, com recurso à tecnologia, à comunidade e ao meio ambiente. As crianças são convidadas a escolher os materiais de ensino – muitas vezes construídos por elas – e as tutoras desempenham “apenas” o papel de orientadoras numa aprendizagem que é individual e que avança ao ritmo das capacidades e das características de cada um.

Aqui há, sobretudo, tempo para brincar lá fora, aprendendo mesmo sem dar por isso. Para estar no ringue a andar de patins ou na floresta a subir às árvores. Para passar a manhã com os idosos do lar ou para ir para a praia, apanhar o lixo que fica na areia. Para aprender a fazer pão ou a trabalhar o barro com o oleiro da freguesia. Para se ser empreendedor antes mesmo de ter ouvido esta palavra pela primeira vez.

Há tempo para alimentar as amizades. Dar-lhes tempo e espaço para acontecerem. Para criar elos fortes – feitos de afecto e de confiança – com as tutoras e com todos os que fazem parte da escola. Há, sobretudo, tempo para se ser criança. E – caramba- não será este o melhor dos motivos para deixar um filho na escola?

~~ ~~ ~~ ~~

Obrigada Cátia, Lídia e Luísa pelo trabalho que desenvolvem todos os dias – com cabeça e coração.

Cátia e Zé, Nina e João, Inês e Cláudio, Ana e Daniel, Eunice e Pedro, Xana e Sérgio, Patrícia e Ricardo, Joana e Abel, Tânia e Mário, Nina e Miguel, Catarina e Miguel: tem sido incrível fazer parte desta aventura convosco (seus malucos!) 🙂

 

8 comentários em “E, ao sétimo dia, fizemos uma escola…

  1. Sara Nunes

    Olá Catarina,
    Sempre achei que para se ser pai e mãe é preciso ter uma dose considerável de loucura. Mesmo quando existe mais do que um filho… Porque eles são diferentes entre si e nós somos pais diferentes para cada um deles.
    Sou mãe de uma menina de 12 anos e madrasta (blargh, odeio esta palavra) de um rapagão de 20 anos. Para embarcar na aventura de ser mãe de quem já tem mãe foi uma loucura grande mas gerar uma outra vida tem sido, sem dúvida a loucura total. Este relambório todo para chegar ao ponto que queria: é bom fazer loucuras PARA e COM os nossos filhos. É bom conseguir perceber que conseguimos, neste mundo tão formatado, proporcionar-lhes experiências diferentes e educá-los fora da caixa. No meu caso não consigo ser tão aventureira. Enquanto que acho que o matulão de 20 anos, pela sua personalidade, tivesse beneficiado nesse tipo de ensino, acredito que a Madalena perdesse o foco … Ou talvez seja eu que tenho medo de lidar com essa “falta de pressão” por parte da sociedade e com a qual me fui habituando a crescer. A minha sobrinha, com 10 anos, irá entrar este ano para uma escola com um formato semelhante e acredito que vá funcionar porque não é grande amante de aulas, estudos “per si”, e horários cheios de matéria sem importância (aparente).
    Não sei qual será o futuro da minha filha (embora saiba que será risonho) mas tenho medo de arriscar em coisas diferentes quando se fala em educação: e se depois não está tão bem preparada como os outros para enfrentar os exames para a faculdade (se for esse o seu caminho)?; e se não estiver equiparada ao nível curricular como os demais e isso não a permita arranjar o emprego que pretende? Gostava de ter mais informações sobre este tipo de ensino de forma a não ser tão “velha do Restelo”…
    De qualquer forma: TODA A SORTE DO MUNDO para este projecto e para estes meninos e meninas que irão aprender coisas novas e de forma diferente e que sortudos eles são por terem pais que se preocupam desta forma.
    Beijinho

  2. Andreia Santos

    Parabéns a todos os pais que se lançaram neste desafio, grande coragem e exemplo que passaram aos vossos filhos, colocando os valores acima de tudo, considerando a criança e não só o aluno. Todos nós temos capacidades, todos nós trazemos ferramentas connosco, mas infelizmente o nosso método tradicional de ensino muitas vezes não nos deixa usá-las, pois tudo tem de seguir um padrão que alguém inventou no século passado. Acho piada que a preocupação neste momento está em adaptar as novas tecnologias na escola… de novas tecnologias estão eles rodeados e por isso andam tão híper estimulados que se esquecem de usar as suas próprias ferramentas. Trabalho em educação, adorava participar num projeto deste tipo, mas por enquanto não dá. Boa sorte para todos vós e vão dando noticias!

  3. Ana

    Quero um dia pensar fora da caixa como os pais que alinharam nesta loucura tão boa e proporcionar uma educação alternativa e divertida aos meus filhos!! Parabéns!

  4. cristina silva

    adorei o texto, a coragem e o arregacar das mangas para a concretizacao do mesmo projeto que acreditam e e o melhor . infelizmente o ensino regular e apenas um descarregar de materias em seres por si formatados, sem respeitar as suas capacidades ou interesses. tenho o privilegio de ter escolhido esta vertente de ensino livre para o meu filho que vai frequentar o 6o ano. desejo vos as maiores felicidades e parabens aos vossos filhos por terem uns pais tao preocupados e fantasticos.

  5. Maria

    Acho interessante o método, mas ainda fico reticente quanto as exigências e ritmo do ensino secundário, a que vão ter de lidar posteriormente. De qualquer forma admiro. Sem medos, do método tradicional, nunca puseram a hipótese de proporcionar atividades extracurriculares, como o escutismo? Ou campos de férias? Culturalmente sai grandes escolas também. Boa sorte

  6. Maria

    … questiono como teria sido bom um ensino assim, mas ao mesmo tempo, as repetições da tabuada na matemática, da gramática ou das cópias para fortalecer o português também foram importantes até hoje. Sempre tive esses princípios e convivência por pertencer a grupos de escuteiros, ou grupos de jovens. Não colocam essa hipótese? Pelo menos, neste novo ensino, a sua autoestima e criarividade deverão sair reforçadas. Não percam hábitos de leitura e raciocínio. Força para as marias

  7. Susana Martins

    Parabéns pela iniciativa!! Fiquei maravilhada por saber que, felizmente, já vão aparecendo mais projetos com ambientes educativos tão diferentes e tão ricos do ponto de vista da formação e do neurodesenvolvimento de cada criança. Fiz a mesma escolha para os meus filhos, numa escola em Monsanto que adorei. Foi das melhores decisões que fizemos como pais. São hoje jovens confiantes, seguros, atletas e excelentes alunos. Recomendo a todos os pais estes novos formatos educativos, essencialmente numa fase pré escolar e de 1.º ciclo. Desejos de enorme sucesso!

  8. AGS

    Gosto! Onde estou cada vez ha mais iniciativas dessas, e tb ‘e dos paises onde ha mais home schooling.

    Como vao fazer em relacao ao ensino normal, isto e’ vao fazer exames no fim de cada ano como fazem os miudos q estao a fazer home schooling? sigo um pouco as aventuras da Ana Rute Cavaco (http://poraquieporali.blogspot.com/), pelo q percebi os miudos tem todos conseguido passar os exames anuais.

    Nao querendo ser injusta para o sistema de ensino (pq ser professor tb pode ser as vezes a profissao mais injusta do mundo) o ensino actual ainda esta a pensar num mercado de trabalho q ja nao existe, a formar continuamente cidadaos q nao estao preparados minimamente para as mudancas q a sociedade do futuro precisa. O mundo do trabalho ja n e’ o q era, o planeta q pisamos tb ja n e’ o q era. Ser Mae/Pai e’ mais q gerar , alimentar & formatar.

    Coragem e boa sorte para as Marias!

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