7 da tarde e ainda não lavei os dentes

Auschwitz ou o sítio onde mora o silêncio

O meu primeiro contacto com aquilo que o regime nazi decidiu fazer a milhões de pessoas de todo o mundo, entre 1940 e 1945, surgiu com a história de Anne Frank. Li o diário desta rapariga judia alemã quando tinha apenas 9 ou 10 anos e, na altura, lembro-me de ter ficado tão impressionada com a história da sua família, que este período histórico foi sempre uma questão muito “particular” para mim.

Acho que a miúda que eu era quando li o livro – uma edição infantil cheia de fotos que uma tia me ofereceu – sentiu-se a viver naquele cubículo, naquelas circunstâncias que alteram a rotina de uma família até nas coisas mais simples e elementares. Sentiu aquele medo atroz de ser descoberta e o terror da separação da família – já para não falar no que aconteceu depois. Sentiu tudo isto e era tudo tão diferente da sua realidade, apesar de terem quase a mesma idade.

“Aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo!” (George Santayana)

Este sábado entrei com as minhas irmãs nos campos de concentração de Auschwitz e de Auschwitz-Birkenau, a apenas dois quilómetros um do outro, em Oświęcim, na Polónia. E voltei a sentir a incredulidade e a revolta que senti há quase 30 anos. Não porque entretanto tenha esquecido este capítulo da história, mas porque estar ali torna mais acesas as recordações – e é precisamente esse o objectivo deste museu/memorial: não deixar cair no esquecimento que aquilo aconteceu mesmo. Foi verdade.

Os primeiros passos que damos em direcção ao famoso – e irónico, sádico e macabro – portão de ferro com a frase “arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) obrigam-nos a respirar fundo. Porque, diante de nós, erguem-se em centenas de metros quadrados os barracões de tijolo escuro que – sabemos bem – foram palco das maiores atrocidades alguma vez cometidas por homens a outros homens. Aqui e em tantos outros campos de morte construídos pelo regime nazi.

A guia, que mais tarde acaba por revelar que familiares seus passaram por aquele campo, pára ali mesmo em frente ao portão e lembra que se trata de um memorial. “Morreram aqui milhares e milhares de pessoas. Vamos respeitar a sua memória com o nosso silêncio”.

E é em silêncio – um silêncio tão presente que quase o podemos ouvir – que avançamos pelo corredor central do campo. Há barracões em ambos os lados, repetidos dezenas e dezenas de vezes numa grelha geométrica que se perde de vista.

Entramos no primeiro barracão. Lá dentro, centenas de pessoas fazem a visita. As que já visitaram a primeira sala caminham em direcção contrária para a segunda e eu cruzo o olhar com elas. Os rostos estão fechados. Quase sem expressão.

Se lá fora o dia está cinzento, aqui dentro é bem pior.

Quando saímos da primeira sala, também nós ficamos assim. É o mais natural, depois de ouvir a história – ilustrada com factos, números cheios de zeros e fotos – de quem chegava de comboio, depois de ter viajado durante dias e dias em vagões de mercadorias, sem janelas, sem casas-de-banho e sem comida. De quem achava que ia trabalhar – até tinha comprado o bilhete de comboio para isso! – e trazia uma trouxa às costas com meia dúzia de pertences e os filhos ao colo ou pela mão. E, em 80% dos casos (nunca tinha ouvido este número antes), acabado de chegar, era convidado a tomar banho, morrendo em 20 minutos, nas câmaras de gás.

Auschwitz tem uma energia diferente. Só pode ter!

Apesar do calor no interior dos barracões, há arrepios que começam na nuca e vêm até aos dedos dos pés. Várias vezes, em vários locais do campo de concentração. Há coisas que vemos ali – e que mesmo que pudéssemos fotografar eu não conseguiria – que nunca vou esquecer na vida. Porque vivo numa realidade diferente, felizmente, e porque sou mãe. E quando temos filhos há coisas que nos atingem sem filtro.

“Como é possível?!” veio várias vezes à minha cabeça.

Pessoas vestidas de igual, com uma farda imunda que usavam há semanas ou mesmo há meses. Sem poder tomar banho, a dormir como sardinhas enlatadas no chão, entre ratazanas, e sem poder usar a casa-de-banho. Malnutridas, obrigadas a caminhar rápido depois de 11 horas de trabalho pesado (e ao ritmo de uma sinfonia nazi que tocava ali mesmo, ao vivo, uma música alegre).

Às vezes, ainda tinham de trazer às costas companheiros que morreram enquanto trabalhavam ou que não resistiram à pancada que levaram. Pessoas despojadas de tudo: família, identidade, casa, bens, dignidade.

Não se visita Auschwitz por prazer.

E percebo agora a motivação de tanta gente que já passou por este local e a razão pela qual esta visita de estudo é obrigatória em todas as escolas polacas – e, pelo que percebi, nas alemãs também.

Marcou-me muito ter entrado nos casebres onde ficavam as mulheres e as crianças, em Birkenau. Marcou-me ainda mais por saber que, passados mais de 70 anos, ainda há pessoas a viver em condições semelhantes e há novos Hitlers (com outros nomes e outros penteados) que precisam de ser travados.

“Viajámos até aqui nos vagões selados; vimos partir em direcção ao nada as nossas mulheres e as nossas crianças; reduzidos a escravos, marchamos mil vezes para trás e para diante, numa fadiga muda, já apagados nas almas antes da morte anónima. Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem“, Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz.

31 comentários em “Auschwitz ou o sítio onde mora o silêncio

  1. Raquel

    Também li o livro, devorei tudo que eram filmes relacionados e quando soube que tinha oportunidade de ir à Polónia a minha condição era só uma :’ir a Auschwitz’.
    Devia ser obrigatório para todos. Para ninguém esquecer o que há meia dúzia de décadas atrás o homem foi capaz de fazer ao seu semelhante. É realmente nauseante!

  2. Ana Calçada

    A crueldade humana é mesmo sem limites, por mais que nos custe a acreditar. E como é difícil combatê-la, sempre ali à espreita! Aqui no Brasil estamos às vésperas de sermos governados por pessoas cruéis. Como chegamos a esse ponto? Onde falhamos como sociedade? E todos os meus sonhos de juventude, lutando pelas “Diretas já”, indo por água abaixo. Como diz a canção “ é preciso estar atento e forte” e temos que nos unir e falar e contar e não esquecer nunca! Que nos valha a sorte! Obrigada pelo testemunho, Catarina. É sempre um prazer ler suas escritas.

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Olá Ana,
      Antes de mais, obrigada por “me” ler 🙂
      Confesso que o que está a acontecer no Brasil me deixa estupefacta. É extremamente perigoso – ainda que as alternativas não sejam consistentes – entregar o ouro ao maior dos bandidos…
      Vamos ver!
      Um beijinho

  3. Iolanda Santos

    Fui a Auschwitz em 2011 e até hoje foi a viagem mais impressionante, tudo o que vou vi naquele lugar marcou porque apesar de já nos livros de história e nas aulas falarmos sobre este pedaço macabro da história mundial nada nos prepara para sentirmos o medo o frio e o horror que estão presos naquelas paredes. Desconhecia tanta coisa que foi dita, o facto de muitos irem felizes a pensar que iam encontrar um porto seguro e apenas encontravam a morte. Doeu ver aqueles milhares de óculos, sapatos, malas, que pertenceram a pessoas como eu, que queria ver os filhos crescer, que queria ter direito à sua vida. Acho que devia ser uma viagem obrigatória não só na Polónia e na Alemanha mas mundialmente porque tens razão quando dizes que cada vez mais existem novos Hitler com outros nomes, mas parece que a humanidade anda esquecida desta atrocidade e do que negar os direitos e a liberdade das pessoas provoca no mundo. Obrigado pela tua partilha Catarina😘

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Iolanda, essas vitrines com os pertences de cada um tiram-nos o tapete. Confesso que não aguentei e, perante a dos sapatos de crianças, desatei a chorar…
      Mas de facto devia ser obrigatório.
      Um beijinho (e obrigada eu!)

  4. Helena

    Numa altura em que a extrema direita regressa à Europa em passos largos demonstrando que a história é cíclica e a memória curta, muito curta, urge nunca deixar esquecer o que se passou. Em lado nenhum do planeta.

    Sabia que quando eles chegavam havia logo uma pré-selecção do que interessava para os campos e testes médicos e os que não interessavam, como os mais idosos e os doentes, que íam logo tomar “banho”.

    Não sabia que havia quem pagasse bilhete para ir para os campos de trabalho. 😮

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Helena, numa das vitrines estão lá esses bilhetes de comboio. A maioria era vendida na Hungria que – fiquei também a saber – foi o país com mais pessoas mortas em Auschwitz…
      É macabro mesmo. Assustador esta ascensão da extrema direita.
      Como é possível?! (mais uma vez)

  5. Catia

    Olá Catarina. Tal como tu tenho um interesse especial por este capítulo da História (também despoletado pela Anne Frank e tal como tu quero muito visitar estes sitios (já estive em Amesterdão na casa dela e adorei). Espero visitar os campos brevemente…só de ler a tua interpretação deste local arrepiou-me por isso o que se sente no local deve incomodar e doer. E tal como tu também tenho muito medo que a História se repita. Beijinhos

  6. Andreia Dias

    Estive nos dois campos de concentração em Janeiro deste ano, precisamente no fim de semana que se celebrava a libertação do campo.
    É um sítio arrepiante, com uma comutação negativa horrível. Acho que todos deveríamos visitar Auschwitz na vida, pois nunca deve ser esquecido aquilo que o homem foi capaz de fazer.
    Um beijinho Catarina

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Olá Andreia,
      Confesso que esta experiência me ultrapassou de diferentes formas. Escrever este texto foi quase uma forma de desabafar e de desatar um nó que ficou aqui no meu peito.
      Um beijinho!

  7. Júlio Prego

    Uma visita obrigatória e para meditar, visitei Auschwitz e Birkenau este ano nas férias da páscoa, uma visita onde eu ia á procura de algumas respostas, mas se de lá com mais precisão, Auschwitz ultrapassa toda a nossa imaginação do mal que um ser humano é capaz de infligir ao seu semelhante.

  8. Cátia Jesus

    No início deste mês visitei Budapeste na Hungria e por lá são bem visíveis as marcas da Segunda Guerra.
    Os Sapatos à beira do Danúbio, a Casa do Terror, entre outros… Mas principalmente quando falamos sobre o assunto com os locais que ainda têm muito presente uma cidade completamente destruída e milhares dos seus mortos 😔😔

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Ainda para mais porque o povo húngaro foi o mais sacrificado em Auschwitz e em Auschwitz-Birkenau (eu sempre achei que tinham sido mortos sobretudo judeus alemães)…

  9. Suzana

    Penso que ninguém fica indiferente a este período tão cruel. Mesmo sem nunca ter visitado esses campos malditos, que um monstro se lembrou de mandar construir parece que os conhecemos de tantas vezes ler estás descrições. Continuo sem perceber como permitiram que isto acontecessem, como deram tão grande poder a um homem que se julgou um Deus de justiça..??? Gostei muito de ler esta descrição. Deve se um sentimento muito estranho pisar aquele chão carregado de dor.

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      É mesmo Suzana.
      Não querendo cair num lugar comum, aquele sítio é mesmo diferente e tem uma energia muito própria. Um murro no estômago que é obrigatório (nem que seja para darmos graças pela realidade em que vivemos e que, não sendo perfeita, não nos sujeita a esta tortura).

  10. Ricardo Chaves Jorge

    Visitei Auschwitz em 2015 e voltei lá este Verão.
    Não há muito para dizer, apenas quero dizer, que, o que ali está e o que ali se respira é mau demais…
    Ali entende-se na perfeição até onde a loucura e a crueldade do Homem o poderam levar.
    Deveria ser um lugar de passagem/visita, obrigatório, para todos.

  11. Mariana

    Ironias do destino. Acompanhei a sua viagem com as manas, ainda pensei o quão giro seria fazer uma viagem assim com as minhas manas. E na semana passada propus acompanharem-me numa visita a Auschwitz, infelizmente não tive muito sucesso. Mas nesse mesmo dia decidi ver um documentário sobre a 2ª Guerra Mundial em que falava dos métodos de “matança” dos alemães, falavam das valas comuns que me deixou incrédula. Agora vejo que por coincidência,ou não, a sua publicação inspirou-me e tenho mesmo de fazer esta viagem.
    Parabéns pelo texto.

  12. Patrícia L.

    Tive a oportunidade de visitar os campos de Auschwitz-Birkenau este verão, em Julho. A visita marcou-me de forma profunda e sei que nunca esquecerei as coisas que lá vi, e senti. Mesmo indo num dia de verão e com calor, o frio que se sente dentro de nós é inegável. Ver as malas, os óculos, as toneladas de cabelo, as roupinhas e sapatos de bebés, as latas de gás… Sei que em nenhum outro lugar do mundo me senti como me senti dentro da câmara de gás de Auschwitz. E fiquei chocada com a dimensão de Birkenau, a forma como a sua grandeza física corresponde à crueldade do que lá se passou dentro… Ainda bem que a Catarina lá foi, pois apesar de ser doloroso é necessário. Obrigada pelo seu testemunho. Todas as pessoas que lá vão precisam de contar aos outros o que viram, para que a história nunca seja esquecida.

  13. Vasco

    Por acaso alguem poderá esclarecer como é que a Anne Frank e o Primo Levi (são os sobreviventes aqui citados)escaparam com vida às câmaras de gás de Birkenau ?

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Olá Vasco,
      A Anne Frank não sobreviveu, morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, em 1945; Levi tinha estudado química na faculdade por isso, no campo, foi levado para um laboratório onde estudava uma nova forma de criar borracha sintética… Foi libertado em 1945.

  14. Marta Nunes

    Durante anos, desde os tempos de escola, quis ir a Auschwitz. Uma curiosidade misturada com um interesse pela II Guerra Mundial fizeram do local uma viagem de sonho (se é que assim se pode chamar)! Este ano em Junho fui finalmente ao local que tanto quis visitar, a expectativa era enorme e se entrei muda de lá saí calada… e lavada em lágrimas 😭 É demasiado horrível imaginar sequer tudo o que ali se passou!! Não há livros, fotos, relatos, manuais de História, reportagens, filmes, etc, que nos preparem para o que vamos ver ali. É um local onde apenas de sente… e muito! Birkenau, talvez porque quando fui tudo estava verde e florido, foi um local mais “leve” mas que carrega uma energia enorme. Foi um misto de sentimentos, por saber tudo o que ali se passou e ao mesmo tempo sentir uma paz de espírito que não consigo explicar!
    Devia ser obrigatório visitar pelo menos uma vez na vida para que as gerações futuras não caiam no mesmo erro e a História não se volte a repetir!
    Voltarei lá um dia, a minha sobrinha tem o mesmo desejo de visitar que eu tinha e quero ser eu a levá-la lá e a dar-lhe a conhecer o sítio mais horrível de toda a história mundial!
    Um beijinho 😘

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