7 da tarde e ainda não lavei os dentes

Polónia, doce Polónia (parte I – Varsóvia)

Foi uma resolução feita no Natal passado: a partir de agora, eu e as minhas irmãs vamos fazer, todos os anos, uma viagem juntas. “Como é que não nos tínhamos lembrado disto antes?” é a pergunta que se faz!

Mas mais vale tarde do que nunca e pusemos mãos à obra!

Escolhemos para a estreia a Polónia por ser um país a que nenhuma tinha ido ainda e que era interessante para as três. Primeiro pensámos em ir só a Cracóvia, com passagem por Auschwitz, mas depois decidimos incluir também no roteiro a cidade de Varsóvia.

Tinha poucas informações sobre ambas as cidades e, quando comecei a ler sobre elas, apaixonei-me.

 

~~ DIA 1 ~~

A poucos dias de partirmos, houve várias pessoas que me disseram que Varsóvia era uma cidade muito industrial e que não tinha muito para ver, ao contrário de Cracóvia. Foi por esta razão que eu cheguei à capital polaca com expectativas moderadas. E surpreendi-me muito.

Ainda dentro do Uber que nos levou do aeroporto até ao centro (uma viagem que demorou cerca de 30 minutos, não pela distância mas pelo trânsito caótico), deu para perceber – através da janela – que tínhamos tomado a decisão certa.

Chegámos por volta das 15h e sentimos que ia ficar escuro em breve. Assim, fomos deixar a mala ao apartamento (que alugámos através do Booking numa zona bem central e por um preço fantástico) e decidimos ir caminhando através da Marszalkowska, ali ao virar da esquina.

    

É uma avenida larga (com três faixas em cada lado) e com mais de 3 km, onde edifícios modernos convivem em harmonia com monumentos históricos, como é o caso do emblemático Palácio da Cultura e da Ciência, que podemos ver de vários pontos da cidade.

O objectivo era ir vendo a cidade e parar para comer no “Manekin”, restaurante que nos recomendaram. Mas a fila para entrar era enorme, nós tínhamos pouco tempo e accionámos logo o plano B: ir ao “Du-za Mi-ha”, conhecido por ter a melhor comida asiática da cidade (o que me fez sentido, apesar de tudo, porque os pierogis polacos são muito semelhantes aos dumplings).

 

A comida chegou à mesa e parecia uma festa de cores, texturas e aromas, com o côco e o caril a sobressaírem de entre todos os outros. Pedimos ramen de legumes com galinha, uns spring roll de vegetais, um pato com aipo e um caril de gambas e, para acompanhar – e servir de extintor – uma mega-limonada. Estava tudo excelente, com aquele saborzinho a comida caseira, não sendo. Estava só um pouquinho puxado para a minha resistência ao picante que é… zero!

Convertendo os zlotys, pagámos pouco mais de 25 euros por tudo isto!

Voltámos a fazer-nos à estrada, que é como quem diz, à avenida principal. Passámos pelo “Wars Sawa Junior”, um shopping modernaço, gigante, no qual não entrámos porque queríamos conhecer a cidade. Como gajas que somos, namorámos à distância uns vestidos na montra e seguimos caminho.

Continuámos em direcção à estação central, a Centralna, onde comprámos os bilhetes de comboio para Cracóvia, que seria já na manhã seguinte (custaram o equivalente a 35 euros cada). Junto à estação, havia gente na rua a ouvir música e a dançar e, apesar do fresquinho – cerca de 6º – a comer ali mesmo.

  

Voltámos pela mesma avenida, mas no lado contrário, em direcção à cidade velha.

À noite a cidade parece outra. As ruas não têm muita luz, se compararmos com Lisboa, por exemplo, mas os edifícios principais estão bem iluminados.

Ao entrarmos nas ruas mais estreitas, já perto da cidade velha, deparámo-nos com restaurantes com bom aspecto e com comida de várias partes do mundo, e bares castiços cheios de gente. Ao contrário do que acontece por cá, há imensas lojas de conveniência – da cadeia Carrefour chega a haver duas na mesma rua! – e há muita gente a comprar qualquer coisa que depois vai comendo, rua fora.

Íamos a andar a bom ritmo, talvez para nos aquecermos, mas a imponência do edifício do Teatr Wielki, ou o Grande Teatro Nacional, obrigou-nos a parar. Aqui fica a Ópera de Varsóvia, com capacidade para sentar mais de duas mil pessoas, sendo um dos maiores teatros do mundo inteiro. Ocupa praticamente todo o quarteirão, numa praceta bonita, onde começa “oficialmente” a cidade velha.

  

Daqui metemos por ruas estreitas, passando pela Catedral de São João e indo dar à enorme praça onde fica o Zamek Królewski, o Castelo Real.

Ponto de encontro de amigos, há por ali músicos a tocar, pessoas a passear e as esplanadas à volta estão cheias de turistas.

  

Atualmente, há uma instalação luminosa que lembra que passaram 100 anos desde o fim da I Guerra Mundial. Pode ler-se “liberdade”. E, realmente, liberdade foi algo muito caro para os polacos. É impossível dissociar a história desta cidade, e deste país, das guerras: a I, a II e, nesse período de invasão alemã, o Holocausto.

Durante a II Guerra Mundial, 85% dos edifícios da cidade ficaram destruídos e a população de Varsóvia passou de 1,3 milhões a apenas 150 mil – quase um décimo do que existia.

Mas ao caminhar por aquelas ruas quase – quase! – nos esquecemos, porque os edifícios foram reconstruídos respeitando o traço original. Da catedral às igrejas, passando pelos prédios, tudo nos parece estar ali desde sempre.

Fomos dar então à Rynek Starego Miasta, a Praça do Mercado da Cidade Velha – talvez a imagem mais característica de Varsóvia.

  

Uma praça linda de morrer, apesar da noite escura, com prédios coloridos encostadinhos uns aos outros como que a proteger-se do frio – ou quem sabe das maldades do passado.

A praça é ampla e tem uma série de esplanadas castiças, mas com um ar demasiado turístico para o nosso gosto.

Houve uma casa de chá, a “Lody Tradycyjne” que nos chamou a atenção, pelo seu ar acolhedor e quentinho e decidimos entrar.

  

Pedimos três fatias de bolos tradicionais e três bebidas. E por aqui se vê o quão diferentes somos as três: a Joana (a mais nova) pediu um batido de morango; a Sara (do meio) pediu um copo de vinho doce e eu pedi uma cidra… Acho que o próprio rapaz ficou meio baralhado com o pedido…

Os bolos eram um cheesecake, mas a saber mais a queijo do que aquele que fazemos por cá; um bolo de chocolate tipo brownie e outro tipo pavlova, de merengue, que tem um ar bem mais doce do que é na realidade, já que o creme por cima é bastante fresco e “neutro”.

Depois de descansarmos e de estarmos à conversa – nós falamos muito! (à excepção da Joana, que ou é mais caladinha ou então nunca tem muita oportunidade de falar…) – decidimos voltar à rua, em direcção ao Barbacã, a muralha do castelo que cerca a cidade velha.

Visitámos o monumento em homenagem ao Soldado Insurgente, dedicado aos jovens, filhos dos rebeldes que participaram na Revolta de Varsóvia, em 1944 (movimento que culminou com a libertação da cidade do poder alemão no início de 1945).

Curiosamente, foi inspirado numa personagem real, Curly – filho de uma enfermeira que tratou os combatentes da Resistência. Como muitas outras crianças da época, serviu de ligação entre as unidades, “lutando pelas pedras de Varsóvia e desistindo do seu sangue”, como pode ler-se na placa atrás do monumento.

Regressámos, então, pela Krakowskie Przedmiescie, onde mais à frente há um novo memorial de homenagem aos Insurgentes e que vai dar ao Túmulo do Soldado Desconhecido.

Este monumento foi originalmente construído, em 1925, para abrigar os restos mortais de um soldado desconhecido, morto durante a guerra Polaco-Ucraniana de 1918 a 1919.

Com o soldado, foram enterrados recipientes contendo o solo de 14 diferentes campos de batalha na fronteira leste. Infelizmente, este soldado acaba por simbolizar milhões deles, mortos em batalhas que se seguiriam.

Tivemos uma sorte brutal, porque apanhámos o render da guarda e foi um momento muito bonito e envolvente, pela rigidez dos movimentos dos militares que contrasta com a delicadeza do túmulo e do próprio jardim onde está construído, repleto de “amores perfeitos”.

 

~~DIA 2 ~~

O comboio para Cracóvia era às 9h e pouco da manhã, mas achámos que a cidade velha merecia uma nova visita, com mais luz, e então levantámo-nos bem cedo e pusemo-nos a caminho.

Parámos junto ao castelo e pudemos apreciar a vista incrível sobre a cidade, ainda a acordar àquela hora.

  

E voltámos a percorrer as ruas estreitas em direcção à Praça do Mercado, cujas cores apareciam agora bem mais vivas, com o sol tímido a brilhar nas janelas.

Que sítio lindo! Por momentos, esquecemos o relógio e o comboio e ficámos ali, só a olhar para os prédios daquela praça.

  

Decidimos apanhar um Uber até à estação central de comboios, porque as pernas já se queixavam e ainda não eram 8h30!

A caminho da estação percebemos que Varsóvia precisava de, pelo menos, mais um dia inteiro, até porque não chegámos ir ao Bairro de Praga (para dar apenas um exemplo).

Mas só tínhamos mesmo quatro dias e, como eu acho sempre que vou voltar a todos os sítios onde já estive – e não há nada a fazer em relação a isso – fica para a próxima!

A viagem de comboio para Cracóvia faz-se muito bem. Leva pouco mais de duas horas, os bancos são confortáveis e nós ainda tivemos sorte porque viajámos num daqueles compartimentos fechados, super tranquilas.

Aquele cliché…

Pela janela, vimos “passar” pequenas zonas industriais, quintas com animais, zonas agrícolas e verde. Muito verde, salpicado de todos os tons possíveis e imaginários de amarelo torrado, castanho, cor-de-vinho e dourado.

Quando chegámos à estação de Cracóvia, comprámos logo os bilhetes de camioneta para o dia seguinte, para Auschwitz, mas, percebemos depois, podem ser comprados na camioneta ao motorista, no próprio dia (custam pouco mais de 3 euros e a viagem demora 1h20).

Chegámos a “casa”, um apartamento que reservámos também através do Booking, baratinho e bem giro, muito bem decorado, e mesmo ao lado do Zamek Krolewski, o Castelo Real de Cracóvia. Tão bem localizado que permitiu-nos rentabilizar estes dias de uma forma incrível!

A segunda parte da nossa aventura, brevemente, aqui no sítio do costume…

3 comentários em “Polónia, doce Polónia (parte I – Varsóvia)

  1. Patrícia

    Ai Catarina!!
    Que delícia de texto…de viagem!
    Estava ansiosa para ler este texto (e o próximo)!
    Varsóvia, Cracóvia…uma das minhas viagens de sonho. Fiquei contente por saber os preços das refeições, transportes,… são bem simpáticos!
    Vou continuar a encher o mealheiro! 💪😉
    Vou conseguir…
    Um beijinho! 😘

    1. Catarina Fernandes Raminhos Autor

      Olá Patrícia!
      Os preços são mesmo muito simpáticos, especialmente tendo em conta a qualidade da comida, por exemplo 🙂
      Toca a juntar. Vai conseguir! 😉
      Beijinho

  2. Sofia Rocha

    Excelente Post !

    Estive em Varsóvia em Fevereiro e também fiquei rendida ! De facto acho que é uma cidade que merecia pelo menos mais um dia, os museus valem muito a pena, lazienki park é qualquer coisa, a rua prozna, onde estão edificados os últimos prédios que sobram do gueto de Varsóvia e os restos do muro que devia a cidade do gueto são pontos de cortar a respiracao !

    Como pretendo ir a Cracóvia nos próximos meses ficarei a espera do próximo post, com várias dicas espero 😉

    Um beijinho

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