7 da tarde e ainda não lavei os dentes

O Natal (ou a montanha russa de emoções que é a festa do ano)

    

Há uma espécie de curva da vida para a forma como vivemos o Natal.

Como nos gráficos, começamos a subir ainda nem demos conta porque somos bebés e estamos ao colo dos nossos pais. Atingimos uma velocidade considerável quando somos crianças e temos 4, 5, 6 anos. Continuamos a subir aos 7 – aquele ano em que escrevemos nós mesmas a carta ao Pai Natal e ele até nos traz uma das três coisas que pedimos! Subimos mais um bocadinho aos 8; aos 9 ele dá-nos uma Nintendo e nunca nos sentimos tão felizes na vida.

Aos 10, há um sacana de um colega que vomita a frase “o Pai Natal não existe!” e tira-nos o tapete. “Raios, como não existe?!” Vamos para casa com esta frase e os nossos pais juram a pés juntos que existe. Fazem 30 por uma linha e nesse ano o pai disfarça-se de Pai Natal, nós só o vemos de relance e, por milagre, aparecem umas bonecas gigantes debaixo da árvore. “Claro que existe! Eu vi-o!” Sinos a tocar, magia no ar: Aleluia! É Natal!

Durante esse ano o avô parte e o natal é mais triste. Mas cabe-nos a nós, manas mais velhas, continuar a fazer a mais nova acreditar e lá se vive a coisa intensamente. Começamos a descer na curva. Fazemos 12 e o presente já não é um brinquedo, mas um casaco. “Raios”. Ganhamos balanço e sentimo-nos descer a pique com 13, 14 e 15. Aos 16 até panos de cozinha recebemos. Aos 17, 18 a mais nova já não acredita. Estamos cá em baixo, em linha recta, encostadinhas ao chão do gráfico. Uma desgraça!

Aos 19 ganhamos um namorado com a entrada na faculdade e o natal é passado em duas casas diferentes. Daí até aos 22 ou 23 vamos subindo novamente na curva, embora bem devagar, à medida que damos mais valor ao Natal da nossa família – porque passamos lá apenas metade do tempo – e porque percebemos que as dinâmicas familiares têm muito que se lhe diga! Já dizia Tolstoi: “todas as famílias felizes são parecidas; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.

Entre os 24 e os 30 vivemos com os tostões contados mas achamos boa ideia usar boa parte do subsídio de Natal – quando ele existe – em prendas para a família inteira. Compramos umas 20 e recebemos umas… 3. Sentimo-nos a descer novamente, mas – hey! – vale-nos o espírito da coisa! Com esta idade percebemos que o Natal passa muito por estar ao lado da mãe e das irmãs, na cozinha, na tarde da Consoada. Por fazer aparecer coisas como que por magia na mesa dos doces – carregadinhas de açúcar e canela, mas de muito amor também.

    

Aos 30 nasce a primeira filha e é a loucura! Subimos por aí fora a pique numa felicidade que não tem fim. Ele é fotos da miúda junto à árvore, no meio dos presentes, ao colo de cada tia e 30 fotos ao colo de cada avó. Nós recebemos só dois presentes – e um fomos nós que comprámos – mas, caraças, a miúda recebeu uns 50! Mais sinos a tocar, magia no ar: Aleluia! É Natal!

Aos 31 a história repete-se, aos 32 nasce a segunda filha e é a loucura novamente, até aos 34.

Aos 35 a avó parte, quebra-se a tradição de lhe escrever o postal de Natal e percebe-se que a quadra vive muito destas pequenas coisas e nós não sabíamos – porque elas simplesmente existiam. Há uma saudade enorme dela e do tempo em que a tínhamos para nós. Mas há também as miúdas e então reinventa-se o Natal. Voltamos para a cozinha, para junto da mãe e das irmãs, e construímos mais memórias boas, com sabor a açúcar e a canela.

Aos 36 é a sogra que parte e é o Natal mais duro de sempre. O mais difícil de fazer acontecer. As miúdas sentem saudades, estão meio confusas ainda e há um esforço colectivo, nos dois lados da família, para fazer o brilho aparecer – a pequenina tem apenas 5 meses e é o motor que põe a coisa a funcionar. A estrelinha no topo da árvore…

Desde esta altura que o nosso Natal ficou coxo. Falta a mãe do meu marido, uma das avós das minhas filhas, a minha amiga Antonieta das conversas boas e intermináveis – que, felizmente, fizemos questão de ter. Está coxo, mas anda: alimentado pelas memórias boas – com sabor a açúcar e canela – e apoiado nesta bengala maravilhosa chamada “família”.

  

12 comentários em “O Natal (ou a montanha russa de emoções que é a festa do ano)

  1. Soraia

    O Natal e o misto entre estar em família e estar sem ela! Sem os que partem mas que deixam tantas saudades, e o que resta são mesmo as recordações boas e o desejo que estejam a olhar por nós e que sejamos motivo de orgulho para eles (onde quer que estejam), e o tentar manter aquilo que nos deixaram com os restantes familiares.
    Que tenham todos um feliz Natal

  2. Vanessa

    Wow…
    A única diferença é que estou nos 31 e, infelizmente, ainda não existe o tal “boost” que nos faz subir a pique na montanha russa.
    Adorei!!!
    Beijinhos e Feliz Natal 💛

  3. Rita

    Catarina! Que espetáculo de descrição! Não podia estar mais certa…o Natal fica sempre coxo quando partem os que mais gostamos 🙁 infelizmente já sabemos por aqui o que isso é…no entanto, este ano, e aos meus 30 👌🏼chegou o tão desejado alento: uma “Minore” como a vossa, que é a “menina Jesus” cá do sítio 😍 e sim! Já temos 463 fotos dela ao pé da árvore! Uma delicia 👶🏼 beijinhos e feliz natal, ainda que coxo, para todos 😘❤️

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