7 da tarde e ainda não lavei os dentes

“Mãe, uma rapariga pode ter uma namorada em vez de um namorado?”

Tenho estado a ler Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes às minhas filhas. Quase todas as noites, lemos três ou quatro biografias, porque os textos são muito curtinhos e sempre muito atractivos.

Numa destas noites lia-lhes a história de Cristina da Suécia, uma rainha que viveu entre 1626 e 1689:

Quando Cristina fez dezoito anos, todos esperavam que se casasse com um homem de uma família nobre – alguém que reforçasse o seu poder. Contudo, ela estava apaixonada por uma das suas damas de companhia…

-“O quê? Mas ela é uma rapariga! Como é que pode gostar de outra rapariga?”, interrompeu a Maria Rita, claramente confusa, “uma rapariga pode ter uma namorada em vez de um namorado?”

Expliquei-lhe que uma mulher pode gostar de um homem ou de uma mulher, assim como um homem pode gostar de uma mulher ou de um homem. Que é algo natural.

As perguntas delas continuaram: “Mãe, no nosso país existem mulheres que gostam de outras mulheres?”. Disse-lhes que sim, que o nosso país não era diferente do resto do mundo porque não se trata de uma questão de geografia, mas de preferência. Que o amor não escolhe género nem idade…

Quiseram saber, então, “porque é que não conhecemos ninguém que goste de pessoas iguais?”. Expliquei que elas não conhecem mas que a mãe e o pais conhecem. Que é a coisa mais natural do mundo, que por agora talvez fosse estranho para elas porque nunca tinham conhecido ninguém, não tinham essa referência, mas que com o tempo iam perceber que era natural.

Continuei a contar-lhes a história de Cristina da Suécia, a quem o Papa Alexandre II chamou “uma rainha sem reino, uma cristã sem fé e uma mulher sem vergonha”. E como, apesar de ter vivido tantas contrariedades, ela nunca teve receio de assumir as suas decisões, de enfrentar as críticas e de se tornar uma referência para outras mulheres no mundo inteiro.

-“Mãe, a vida dela não deve ter sido nada fácil por ser diferente, não achas?”, voltou a perguntar a Maria Rita.

Expliquei que não foi para esta rainha, assim como não é para muitas mulheres ainda nos nossos dias, 400 anos depois.

-“Então mas se dizes que é uma coisa natural, porque é que as pessoas não aceitam?”, questionou a Maria Inês.

-“Pelo preconceito, que é uma ideia feita que algumas pessoas têm em relação às outras e que não querem mudar…”, tentei explicar.

– “Então o problema é dessas pessoas que não querem mudar de ideias e não de quem é rapariga e gosta de outras raparigas”, concluiu a Maria Rita.

-“É isso mesmo filha!”, disse eu.

E nesta noite tapei-as e dei-lhes um beijo de boa noite cheia de orgulho nelas, na compreensão que demonstraram e na abertura de espírito, apesar dos seus 8 e 6 anos.

Confesso que não faço ideia de qual será a melhor altura para falar sobre orientação sexual com as crianças. Mas parece-me que, desde que a pergunta parta delas – seja por curiosidade ou dúvida – será sempre uma boa altura. Para este ou para qualquer outro tema.

33 comentários em ““Mãe, uma rapariga pode ter uma namorada em vez de um namorado?”

  1. Ana Estorninho

    Sempre tive dúvidas de como iria falar sobre esses assuntos aos meus filhos… acho que esta explicação é sem dúvida das melhores que conheço. Parabéns!!!!

    P.S. Se tiver dúvidas no futuro, é favor manter este post bem activo, ok Catarina? 😉

  2. Sofia

    Parabéns!!
    Sou mãe de uma menina de 3 e revejo-me muito em si e neste post…
    Ainda há poucos dias, a conversa que tinha com a minha prendia-se com as cores e ela com apenas 3 anos dizia que o cor-de-rosa não era paga meninos quando nunca na nossa casa se atribui características a nenhum dos sexos como se fosse exclusivo do mesmo. A escola é maravilhosa e traz muita coisa boa as também traz estes desafios porque está numa turma com crianças de 3, 4 e 5 anos e muitas vezes “apanha” este tipo de conversas e ideias. Mas estamos cá nós para desmistificar, educar e sensibilizar 💪
    Beijinho a todos 😘

  3. Luísa Andrade

    Com a minha filha que agora tem 10 anos, respondo sempre com a verdade, nunca menti nem fantasiei. Para mim a pergunta mais difícil foi ” como os bebés são feitos” respondi com a verdade. Muitas mães ficaram chocadas 😁. Quero que ela pergunte tudo sabendo que a mãe lhe dirá a verdade.

  4. Catarina Faisca

    Que sejam todas as mães assim 🙏🏼 Lutemos pela igualdade e não pelo recalcamento e frustração ❤️ Adorei. E amo saber que para as crianças tudo é normal…o preconceito nasce nos pais.

  5. Juliana Sousa

    Tenho uma relação com uma rapariga. Meu afilhado de 10 anos aceitou sem qualquer preconceito. A minha afilhada de 5 anos. Ela apenas perguntou, vais ter bebés na mesma?!
    Acho as crianças um máximo. De mente tão Livre. Excelente abordagem 😊😊 parabéns.

  6. Beatriz Mogo

    Excelente! Adorei, tal como adoro muitos outros texto que pública, está de parabéns não só pelo seu trabalho mas pela sua família fantástica. Beijinho e muito sucesso. 😘

  7. Carina Sofia

    A minha filha tem 13 anos… joga à bola… É uma especie de maria rapaz… feminina… mas sempre no seio de miudas…apercebi-me cedo que existe uma grande possibilidade de vir a gostar de raparigas… ou não… quem sabe.. . Mas .. tive uma certeza. . Não queria que ela se torna-se numa adolescente fechada pensando que os pais nunca iriam aceitar. .por isso fiz questão de conversar com ela e po-la à vontade se um dia descobrir que gosta de uma miuda ou miudo eu quero que me conte e vou aceitar. .. Não quero que seja infeliz ou deprimida. .. a adolescência em si já é tão difícil. ..beijinhos e obrigada. .. Mais crianças como as Marias vão sem dúvida ajudar muitas crianças assim a serem aceites…pelo um mundo melhor e sem preconceitos. .

  8. Maria Jorge

    Olá querida, parabéns pela forma como foi exposto e explicado o assunto perante as Marias. Este assunto não é de todo fácil, tanto para filhos, amigos, pais e afins… Um beijo enorme para as 4❤️

  9. Maria João

    Adoro o facto de esclarecer isso sem olhar a idade e não dar a típica desculpa do “quando fores mais velha cais entender”. Um exemplo a seguir

  10. Ana Raposo

    Até me caiu uma lágrima… Juro que fiquei emocionada.
    A inocência e genuinidade das crianças é uma das mais bonitas coisas que o mundo possui.
    Que as lindas Marias nunca mudem a sua opinião.
    Sendo um sonho meu um dia ser mãe, aos 16 anos, e depois de acompanhar a família Raminhos, um dos meus desejos é que o seja enquadrada numa família tão fantástica quanto esta. Por isso também, os meus parabéns.

    ❤❤❤

  11. L

    Olá, Catarina,

    O meu enteado, filho do meu namorado, é das pessoas que conheço que melhor aceita a diferença e mudança.
    O meu namorado é um homem trans e quando nos juntámos, ele era uma mulher, que havia sido casada com o pai do meu enteado durante anos. Ao longo dos últimos três anos, o miúdo foi vendo a mãe a juntar-se com uma mulher e, progressivamente, a transformar-se num homem. Sempre cheio de perguntas e curiosidades, sei que ele vive bem e confortável connosco.

    Tal como as suas filhas, é muito bom saber que a geração seguinte vai equipada para lidar com a mudança, que eu sinto que é essencial. As diferenças vão existir sempre, mas a capacidade de adaptação tem que ser dada pelos pais. É bom saber que lhes estamos a estender os limites e que os rótulos são óptimos enquanto as pessoas encaixam neles, mas que é mais desejável evoluir em termos pessoais do que caber para sempre naquilo que nos é atribuído.

    Beijinho, bom post!

  12. Libânia Pires

    Catarina parabéns. De facto o amor não escolhe nem género nem idade. É através da educação em casa e nas escolas que devemos combater todos os preconceitos e esteriótipos.
    Cabe-nos a todos nós fazer perceber aos mais novos que o importante é amar…tudo o resto é secundário.
    Quando casei com a minha esposa, convidei uma amiga que tinha 2 filhos menores e que quando a convidei para o casamento ela disse-me: vou levar os meus filhos, porque quero que percebam que à muitas formas de amar e que duas mulheres casarem é algo natural…e fiquei super feliz com aquela atitude…todos nós temos a capacidade de mudar mentalidades…se cada um de nós mudar uma mentalidade, então valerá a pena, e a nossa sociedade será uma sociedade justa e livre de preconceito.

  13. Eugénio sobral

    Brutal!
    Começar a educar os filhos fora da génese para a qual a natureza foi criada, dizendo que é “normal”, um homem gostar de um homem ou uma mulher de uma mulher.
    Garantidamente a contribuir para o crescimento da comunidade LGBT, e logo de pequenino, em que menos custa a assumir às crianças que isso de facto é uma coisa “normal”, mais Ainda quando foi transmitido em casa pelos pais.
    Palmas para a educação das suas filhas :clap: :clap: :clap:

  14. Sónia Rodrigues

    Peço desculpa, mas acho toda esta história uma brutalidade. Então não tem nada melhor para ler às suas filhas tão novas? E que história é essa de o amor não ter género nem idade? Esse era um dos argumentos de Simone Beauvoir e de Jean Paul Sartre a favor da legalização da pedofilia. Não diga às suas filhas que uma coisa é natural, quando não é. Natural, significa normal, e as pessoas normais não são gays. Quanto muito poderá falar em aberração, mas nunca em normal.

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