7 da tarde e ainda não lavei os dentes

E quem precisava de colo era eu…

Eu ia estar sozinha com as miúdas uns dias antes da Páscoa. O pai só chegava na sexta-feira santa à noite por isso, quando ouvi a minha mãe dizer que ia uns dias “à terra” para casa dos meus tios, colei-me de imediato: “posso ir com as miúdas, também?”.

A minha tia Ana, que já me tinha convidado uma dúzia de vezes nos últimos anos – sem que eu tivesse conseguido ir – ficou genuinamente feliz.

O tempo lá foi de família – com tudo o que isso significa. Deixámos as horas passar como quiseram à mesa, naqueles almoços bons, demorados, com conversas de agora e de há muitos anos. A saborear a torta que a mãe fez, o licor que o tio trouxe, o folar que alguém ofereceu a alguém.

Naquelas refeições em que um tio goza com a barriga do outro. Em que alguém se queixa que “está a ficar velho como o caraças”. Em que alguém conta mais uma vez a história daquele dia em que eu e a minha irmã, miúdas pequenas, bebemos o bagaço que tinha ficado no fundo do copo do tio.

Fizemos caminhadas por estradas desertas – com mais histórias partilhadas, com conversas postas em dia e as miúdas às cavalitas. Houve uma caça aos ovos, no pomar, que fez as delícias das miúdas mas ainda mais as dos crescidos…

O pai chegou da Alemanha já tarde mas decidiu pôr uma muda de roupa na mochila e fazer duas horas de carro para ir ter connosco. Chegou a tempo do jantar. As miúdas ficaram doidas com a surpresa. Os meus pais e os meus tios também. E eu fiquei com o coração quentinho porque agora sim, a família estava completa.

Senti-me como em miúda, mas com a alegria acrescida de poder proporcionar esta experiência às minhas filhas. Quis dar-lhes o colo da família mas quem precisava de colo era eu. E que bom que foi. Que bom que é termos colo. Aos 8 e aos 38…

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