7 da tarde e ainda não lavei os dentes

Sobre a “nova normalidade”

Quando era miúda, aí com uns 12 anos, sempre que o professor de educação física nos pedia para correr à volta do campo de basquete eu chegava ao fim com algumas voltas a menos, em relação à maior parte dos meus colegas. Era certinho e direitinho.

Sinto-me exactamente assim quando oiço a expressão “nova normalidade”. Não estou a saber acompanhar o ritmo. Não estou a saber ajustar-me. E às vezes tenho alguma dificuldade em respirar.

Acho que muitas das coisas que vivemos são tudo menos normais – e andamos aqui aos apalpões e a tentar safarmo-nos o melhor que podemos e sabemos. Estamos, com certeza, a aprender alguma coisa com isto, com esta adversidade – pelo menos assim espero. Nem que seja a entendermos de uma vez por todas que não controlamos grande parte daquilo que é a nossa vida.

Mas hoje apetece-me fazer queixinhas (e por isso vim até aqui, onde só aqueles que gostam mesmo daquilo que escrevo se dão ao trabalho de vir). Apetece-me dizer que me faz falta apertar as minhas pessoas, receber os amigos em casa, levar as minhas filhas a brincar com as amigas delas. Faz-me falta ter a certeza hoje que em setembro vão mesmo ter escola e que eu não vou ter de ser mãe, professora, cozinheira, autora e tudo o resto que tenho sido desde março. Que o natal vai ser mesmo natal – em dezembro e não em maio.

Por estes dias até me faz falta saber como e onde raio vão ser as nossas férias, porque as que tínhamos planeado foram canceladas – e estamos tão precisados delas!

Mas porque não adianta chover no molhado – apesar de hoje me ter dado para isso – aprendi que nos dias mais difíceis temos de sacar o nosso melhor sorriso. Mais vezes – as que forem precisas. Temos de fintar as dúvidas, as saudades e as angústias e procurar a nossa normalidade, que não importa se é a “nova” ou a “velha” – tem é de ser aquela que nos permite sentir que corremos ao nosso ritmo, mais do que ao ritmo dos outros, mesmo que com voltas a menos.

Ir ver o mar, encomendar comida feita, ver um filme em família numa tarde de sábado, o que raio nos fizer sentir que temos a nossa vida de volta. Que estamos em nós, com os pés assentes na terra, para que a cabeça possa voar até sítios mais bonitos, mais tranquilos e mais seguros. E sempre que conseguirmos.

5 comentários em “Sobre a “nova normalidade”

  1. Elizabeth Figueiredo

    Catarina, estou na mesma. É confesso que me sinto mil vezes pior agora que no início. De todas as coisas o que mais na custa é não poder abraçar os amigos, eu que sempre fui de beijos e abraços agora sinto-me a murchar por dentro. Não vejo a minha família desde fevereiro, este ano não há férias em família. Este maldito vírus está a roubar-nos tudo. Que ao menos nos deixe a dignidade e a capacidade de sorrir…
    Resta -nos ir seguindo no Instagram pessoas como a Catarina e Raminhos que já considero como “amigos”. Beijinhos 😘

  2. Cláudia Rasteiro

    Olá Catarina, sou seguidora, não muito assídua, confesso. Mas não por vontade própria, acabo por não andar muito pelas redes sociais. Mas gosto muito do que escreve, sempre em forma de desabafo, agora mais do que nunca só conseguimos funcionar se desabafarmos. Sou Enfermeira, estou cansada, saturada e desiludida, do trabalho não me queixo, apesar de todos os descontentamentos que envolve a profissão, ainda gosto muito do que faço á 22a, mas isto para desabafar que desde começou a pandemia e os miúdos vieram para casa que esta frustração aumentou… Tenho uma menina de 12a e queria ter estado mais presente e também não consegui… Fui apanhada de surpresa e acabámos enquanto família por não conseguir gerir da maneira que queríamos ou idealizámos, mas agora tempo passado, secalhar até não correu assim tão mal. Estamos bem com saúde, consigo ver os meus bem, estou feliz. Mas se me permite acho que enquanto sociedade não vamos/estamos a aprender nada… Tenho pena, beijinhos e vou continuar a acompanhar a vossa vida. As meninas são fantásticas e o Raminhos parece-me ser uma ótima pessoa.
    Obrigado por existirem. Muita saúde e protejam-se.

  3. Shuamita

    Olá Catarina, permita me dizer que acho que estamos [email protected] na mesma situação, a sentir exatamente isso.. hoje terminou o ano letivo, vou ficar mais 15 dias em casa porque era o período das minhas férias de verão.. este ano, por casa mesmo. Não sei como gerir voltar a deixar a mais nova na creche, tem apenas 1 ano, não se recorda da educadora, do espaço, vai ser uma nova introdução… A mais velha, 10 anos, agora sem ATL, questiono me como devo fazer, onde a devo deixar, com quem a devo deixar, sendo os meus pais um grupo de risco.. é tudo muito difícil de gerir.. e os ombros amigos, e os colos que tanto precisamos são mantidos á distância pelo bem de todos.. mas até quando.. enfim.. haja saúde ( e vinho).. digo muitas vezes, mas acho mesmo que é merecido.. são uma família exemplar.. obrigada!

  4. Patrícia Rosário

    Um abraço…era o que me apetecia dar à Catarina depois de ler isto. Obrigada, era o que precisava de ler hoje, que pelos vistos, foi um dia igual ao seu.

  5. Sara

    Acho que é um sentimento geral. Queria tanto que isto fosse um pesadelo e acabasse, pois “isto” só pode ter essa denominação, pesadelo.
    Muita força por aí! Beijinhos grandes

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