7 da tarde e ainda não lavei os dentes

2020 numa carta às minhas filhas

Filhotas,

Desconfio que vão ouvir dizer, provavelmente durante alguns anos, que 2020 foi um ano horrível. A mãe, que nunca teve jeito para ver o copo “meio vazio” ou “meio cheio” – apenas vê as coisas como elas parecem ser: às vezes boas, outras más e, a maior parte das vezes, mais ou menos – prefere dizer-vos que foi um ano muito exigente para todos.

Houve uma pandemia que trouxe medo aos nossos corações, nos isolou e fez partir muita gente. E houve também muita gente querida a partir por outras razões – ou devido a outras doenças que, de repente, pareciam ter desaparecido (mas que, infelizmente, continuaram a existir).

Em casa, eu e o pai tivemos de ser profissionais, professores, cozinheiros e mais uma dezena de outras coisas ao mesmo tempo. Mas vocês superaram tudo isso, ajustando-se rapidamente a esta nova forma de viver, em que na mesma sala estavam na escola, no recreio ou em família. Aprenderam mesmo sem a motivação natural de ir à escola e brincar com os amigos.

Houve momentos em que a mãe tirava as vossas dúvidas sobre o que se dizia na televisão, com a cabeça cheia delas – sem ter a certeza do estava realmente a acontecer. E houve momentos – muitos! – em que se sentiu ela própria uma criança cheia de fragilidades, com saudades dos seus e com receio de não “dar conta do recado”.  As emoções estiveram sempre à flor da pele e, por isso mesmo, foi o ano em que mais nos abraçámos em casa. Em que ficámos mais juntos – porque precisávamos todos disso.

Aprendemos a viver (ainda) mais o presente: “amanhã logo se vê como será!” E a “estar” com os avós e os tios através de um ecrã. Foi dessa forma que vimos a prima Laura comer a primeira sopa e que cantámos os parabéns a tantos amigos.

Provavelmente não se vão lembrar de todos os pormenores, mas quando daqui a uns tempos vos falarem de 2020, digam apenas que estiveram à altura do desafio 😉

O ano que já espreita também vai trazer os seus. Não se esqueçam de dar a mão a quem precisa, de segurar a porta a quem vem atrás, de oferecerem os vossos desenhos a quem mais gostam porque isso vos faz felizes. Houve pelo menos duas coisas que 2020 nos ensinou a todos e que alguns de nós quiseram aprender: que a empatia é a mais bonita e a mais necessária das atitudes e que as pequenas coisas são as mais importantes – porque é delas que é feita a diferença. Sempre.

A mãe, que vos adora.

Foto tirada durante o confinamento, através do projecto #retratosàporta

3 comentários em “2020 numa carta às minhas filhas

  1. Elizabeth Figueiredo

    Lindo texto Catarina. Mas vocês fizeram um excelente trabalho. Deram conta do recado e esse é o melhor exemplo para as Marias 💗.
    Admiro-vos muito e desejo-vos tudo de bom. Feliz 2021😘

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